domingo, 31 de janeiro de 2010

Tô de mudança


Mude, mas comece devagar,porque a direção é mais importanteque a velocidade.Sente-se em outra cadeira,no outro lado da mesa.Mais tarde, mude de mesa.Quando sair,procure andar pelo outro lado da rua.Depois, mude de caminho,ande por outras ruas,calmamente,observando com atençãoos lugares por ondevocê passa.Tome outros ônibus.Mude por uns tempos o estilo das roupas.Dê os teus sapatos velhos.Procure andar descalço alguns dias.Tire uma tarde inteirapara passear livremente na praia,ou no parque,e ouvir o canto dos passarinhos.Veja o mundo de outras perspectivas.Abra e feche as gavetase portas com a mão esquerda.Durma no outro lado da cama...depois, procure dormir em outras camas.Assista a outros programas de tv,compre outros jornais...leia outros livros,Viva outros romances.Não faça do hábito um estilo de vida.Ame a novidade.Durma mais tarde.Durma mais cedo.Aprenda uma palavra nova por dianuma outra língua.Corrija a postura.Coma um pouco menos,escolha comidas diferentes,novos temperos, novas cores,novas delícias.Tente o novo todo dia.o novo lado,o novo método,o novo sabor,o novo jeito,o novo prazer,o novo amor.a nova vida.Tente.Busque novos amigos.Tente novos amores.Faça novas relações.Almoce em outros locais,vá a outros restaurantes,tome outro tipo de bebidacompre pão em outra padaria.Almoce mais cedo,jante mais tarde ou vice-versa.Escolha outro mercado...outra marca de sabonete,outro creme dental...tome banho em novos horários.Use canetas de outras cores.Vá passear em outros lugares.Ame muito,cada vez mais,de modos diferentes.Troque de bolsa,de carteira,de malas,troque de carro,compre novos óculos,escreva outras poesias.Jogue os velhos relógios,quebre delicadamenteesses horrorosos despertadores.Vá a outros cinemas,outros cabeleireiros,outros teatros,visite novos museus.Se você não encontrar razões para ser livre,invente-as.Seja criativo.E aproveite para fazer uma viagemdespretensiosa,longa, se possível sem destino.Experimente coisas novas.Troque novamente.Mude, de novo.Experimente outra vez.Você certamente conhecerá coisas melhorese coisas piores do que as já conhecidas,mas não é isso o que importa.O mais importante é a mudança,o movimento,o dinamismo,a energia.Só o que está morto não muda !Repito por pura alegria de viver:a salvação é pelo risco, sem o qual a vida nãovale a pena!!!!"





Clarisse Lispector

(In) Finitude


Se fôssemos infinitos

Tudo mudaria.

Como somos finitos

Muito permanece.



terça-feira, 10 de março de 2009

Convencer


É sombra, o que foi luz;
Silêncio, o que foi multidão;
Vazio, o que foi opinião;

Mas quem foi que disse
que sombra, multidão
e vazio não são bons?

E por isso,
agradeço a você [dessa singela maneira] pela
sombra da tranquilidade,
pelo silêncio da meditação e
pelo vazio da mente
que se abre a novos horizontes.


Aqui fica minha homenagem
aos cinco bons anos de vivência
[e convivência] na faculdade de
Direito da Puc Campinas.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ser

Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme.

Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil.


Não coleciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo.


Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E - sem saber - busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir...


Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Kama Sutra.


Kamasutram (Sânscrito: कामसूत्र), geralmente conhecido no mundo ocidental como Kama Sutra, é um antigo texto indiano sobre o comportamento sexual humano, amplamente considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita.

O texto foi escrito por Vatsyayana, como um breve resumo dos vários trabalhos anteriores que pertencia a uma tradição conhecida genericamente como Kama Shatra.
Kama é a literatura do desejo. Já o Sutra é o discurso de uma série de
aforismos. Sutra foi um termo padrão para um texto técnico, assim como o Yôga Sútra de Pátañjali.

O texto foi escrito originalmente como Vatsyayana Kamasutram (ou "Aforismos sobre o amor, de Vatsyayana").

A tradição diz que o autor foi um estudante celibatário que viveu em Pataliputra, um importante centro de aprendizagem.

Estima-se que ele tenha nascido no início do século IV.

Se isso for correto Vatsyayana viveu durante o ápice da Dinastia Gupta, um perído conhecido pelas grandes contribuições para a literatura Sânscrita e para cultura Védica.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Verdão!

Quando surge o alviverde imponente
No gramado em que a luta o aguarda
Sabe bem o que vem pela frente
Que a dureza do prélio não tarda
E o Palmeiras no ardor da partida
Transformando a lealdade em padrão
Sabe sempre levar de vencida
E mostrar que de fato é campeão
Defesa que ninguém passa
Linha atacante de raça
Torcida que canta e vibra
Defesa que ninguém passa
Linha atacante de raça
Torcida que canta e vibra
Por nosso alviverde inteiro
Que sabe ser brasileiro
Ostentando a sua fibra

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Liberdade.


"Além desse portão, havia o mundo luminoso da liberdade. E, de dentro, aquele mundo nos parecia como um conto de fadas, como uma miragem. O nosso mundo nada tinha de análogo com esse outro: eram leis, costumes, hábitos característicos, uma casa morta-viva, uma vida à parte de homens à parte. E é esse recanto que desejo descrever".


[Fiódor Mikháilovitch Dostoiéviski in Recordações da Casa dos Mortos]

terça-feira, 15 de julho de 2008

Olhar.


Você Virgo,
eu Virgo.
Você desorganizada,
eu indecisa ['indecisão' não me agrada];
Você Leão,
eu Sagitário e Tigre.
Você Branca,
eu Neguinha.
Você 35,
Eu 21.
Você 'Elvis',
Eu 'Tom'.
Você laranja,
não gosto de laranja [só em você].
Você Manhã,
Eu Noite.
Você Saúde,
Eu Papéis.
Você e seu time,
Eu e minha Paixão!
Você escuta, eu falo.
Eu escuto,
Você odeia trânsito.
Dói em você,
Dói aqui.
Você e as piadas [infames],
Eu e a poesia [íntima].
As fotos e nós.

Frases e nós.
Risos e nós.
Calor e nós.
Entre mim e você [nada].
Eu e você.
Nós.

Alguns nós.


[De Mim
Pra Você]

Fala-me.




"Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo Perdeste o senso!"
E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto, Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora:
"Tresloucado amigo! Que conversas com elas?
Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas"

[Olavo Bilac - Via Láctea]

terça-feira, 8 de julho de 2008

Duas Notas.




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Como a chama de uma vela
Sobre a morte, por acaso haverá dois deuses, um de rosto maternal e outro com rosto de torturador?

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ALGUMAS PESSOAS TÊM a felicidade de morrer com a tranqüilidade de uma vela que se apaga repentinamente soprada por uma lufada de vento.
Ela, a vela, estava segura e feliz, gozando sua chama que fazia o trabalho de luz. E, de repente, não mais que de repente... Não houve agonias nem dores.
A chama morreu tranqüila. Como se ela, a morte, fosse uma mãe que coloca a mão sobre os olhos da criança para que ela se entregue ao sono...
Acho que foi assim que aconteceu com dona Ruth Cardoso.
Muitos anos atrás, um repórter perguntou ao então presidente Fernando Henrique: "Como é que o senhor gostaria de morrer?" Ele respondeu: "Dormindo..." Seu desejo se realizou na dona Ruth: ela morreu como se estivesse dormindo...
Se, por acaso, houver entre meus leitores algum que, para se livrar do medo, deseje fazer amizade com a morte, eu aconselharia a leitura do maravilhoso grande livrinho de Bachelard -"A Chama de uma Vela".
Volto sempre a esse livrinho quando desejo meditar sobre o mistério da minha vida, que também se apagará como a vela. Mas eu tenho medo. Quando eu era jovem, era medo puro. Medo metafísico, do escuro do nada...
Vinicius escreveu o seu poema "O Haver" como um consolo diante da morte. "Resta essa obstinação em não fugir do labirinto / Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente / E essa coragem indizível diante do grande medo / E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva..."
Jovem ainda, minha primeira viagem aos Estados Unidos, eu atravessava a Broadway com um amigo japonês, Kunio Goto. As separações, quaisquer separações, são sempre metáforas da Grande Separação. A saudade dos meus queridos no Brasil era muita e eu falava sobre meu medo de morrer. Ele me ouviu, fez alguns segundos de silêncio e observou: "Já pensou, Rubem, em como seria horrível não morrer?" Essa observação chamou-me à razão, mas não diminuiu o sentimento.
O medo foi transfigurado pela saudade.
Rilke tem um verso que diz: "Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?" Imagino que a Cecília se inspirou nas palavras de Rilke ao escrever esse lamento na ode à avó: "Tudo em ti era uma ausência que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se..."
Mas, para outras pessoas, a morte é cruel e sádica. Comporta-se como um torturador que faz o seu trabalho de dor vagarosamente na vítima, que não tem como livrar-se das suas mãos de ferro.
Não sei que critérios usa a morte para determinar o seu estilo de trabalho.
Diante do contraste entre essas duas mortes, as pessoas que não acreditam em Deus sofrem uma dor apenas, a dor da dor. Elas não se perguntam sobre as razões divinas por detrás dessas duas faces da morte que a imaginação cria. Elas simplesmente lamentarão que a vida seja assim irracional e sem cuidados para com os seres humanos, indiferente e ignorante de dores e prazeres. Ninguém é culpado.
Mas o que terão de pensar aqueles que acreditam em Deus, Deus que os teólogos definiram como onipotente e, por isso mesmo, fonte última de tudo o que acontece, inclusive das duas faces da morte? Por acaso haverá dois deuses, um de rosto maternal e outro com rosto de torturador?


[RUBEM ALVES]