terça-feira, 15 de julho de 2008

Fala-me.




"Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo Perdeste o senso!"
E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto, Cintila.
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora:
"Tresloucado amigo! Que conversas com elas?
Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi:
"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas"

[Olavo Bilac - Via Láctea]

terça-feira, 8 de julho de 2008

Duas Notas.




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Como a chama de uma vela
Sobre a morte, por acaso haverá dois deuses, um de rosto maternal e outro com rosto de torturador?

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ALGUMAS PESSOAS TÊM a felicidade de morrer com a tranqüilidade de uma vela que se apaga repentinamente soprada por uma lufada de vento.
Ela, a vela, estava segura e feliz, gozando sua chama que fazia o trabalho de luz. E, de repente, não mais que de repente... Não houve agonias nem dores.
A chama morreu tranqüila. Como se ela, a morte, fosse uma mãe que coloca a mão sobre os olhos da criança para que ela se entregue ao sono...
Acho que foi assim que aconteceu com dona Ruth Cardoso.
Muitos anos atrás, um repórter perguntou ao então presidente Fernando Henrique: "Como é que o senhor gostaria de morrer?" Ele respondeu: "Dormindo..." Seu desejo se realizou na dona Ruth: ela morreu como se estivesse dormindo...
Se, por acaso, houver entre meus leitores algum que, para se livrar do medo, deseje fazer amizade com a morte, eu aconselharia a leitura do maravilhoso grande livrinho de Bachelard -"A Chama de uma Vela".
Volto sempre a esse livrinho quando desejo meditar sobre o mistério da minha vida, que também se apagará como a vela. Mas eu tenho medo. Quando eu era jovem, era medo puro. Medo metafísico, do escuro do nada...
Vinicius escreveu o seu poema "O Haver" como um consolo diante da morte. "Resta essa obstinação em não fugir do labirinto / Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente / E essa coragem indizível diante do grande medo / E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva..."
Jovem ainda, minha primeira viagem aos Estados Unidos, eu atravessava a Broadway com um amigo japonês, Kunio Goto. As separações, quaisquer separações, são sempre metáforas da Grande Separação. A saudade dos meus queridos no Brasil era muita e eu falava sobre meu medo de morrer. Ele me ouviu, fez alguns segundos de silêncio e observou: "Já pensou, Rubem, em como seria horrível não morrer?" Essa observação chamou-me à razão, mas não diminuiu o sentimento.
O medo foi transfigurado pela saudade.
Rilke tem um verso que diz: "Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?" Imagino que a Cecília se inspirou nas palavras de Rilke ao escrever esse lamento na ode à avó: "Tudo em ti era uma ausência que se demorava; uma despedida pronta a cumprir-se..."
Mas, para outras pessoas, a morte é cruel e sádica. Comporta-se como um torturador que faz o seu trabalho de dor vagarosamente na vítima, que não tem como livrar-se das suas mãos de ferro.
Não sei que critérios usa a morte para determinar o seu estilo de trabalho.
Diante do contraste entre essas duas mortes, as pessoas que não acreditam em Deus sofrem uma dor apenas, a dor da dor. Elas não se perguntam sobre as razões divinas por detrás dessas duas faces da morte que a imaginação cria. Elas simplesmente lamentarão que a vida seja assim irracional e sem cuidados para com os seres humanos, indiferente e ignorante de dores e prazeres. Ninguém é culpado.
Mas o que terão de pensar aqueles que acreditam em Deus, Deus que os teólogos definiram como onipotente e, por isso mesmo, fonte última de tudo o que acontece, inclusive das duas faces da morte? Por acaso haverá dois deuses, um de rosto maternal e outro com rosto de torturador?


[RUBEM ALVES]

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Faz Bem.


Acho a maior graça... "Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere..."
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem; você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde.
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada.

[texto de Luís Fernando Veríssimo]

terça-feira, 1 de julho de 2008

1986.


Você se lembra?


De ficar deitado no sofá assistindo o Chaves e Chapolin e quase chorou quando o Chaves ficou sozinho na Vila depois que todos vão para Acapulco?
Odiava ou adorava as provas com cheiro de álcool, recém copiadas no mimiógrafo (usando papel extencil)?
Não ia pra escola no dia do seu aniversário com medo de levar um ovo (ou vários) na cabeça?
Brincava de 'Estátua', 'Queimada', 'Pega-pega', 'Pique-esconde', 'Estrela Nova Cela', 'Forca', 'Cabra-cega', 'Passa Anel', 'Boca de Forno', 'Amarelinha' e 'STOP' (Uéééésstopêêêêê!!!)?
Dançava lambada do Sidney Magal ou do Beto Barbosa? Ou corria pra dançar quando escutava a música "Chorando se foi, quem um dia só me fez choraaaar..."?
Pulava corda com aquela musiquinha: 'Um homem bateu em minha porta e eu abri, senhoras e senhores, ponham a mão no chão'?

Nascimento: 1986!!!!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Me Gusta.


Poesia;
arte;
beijo;
cabelo;
sexo;
conversa;
novos amigos;
velhos amigos;
abacaxi;
limão;
mãe;
Direito;
cinema;
teatro;
coisa velha;
elogio;
crítica construtiva;
blog;
textos;
dança;
cor-de-rosa;
estrela;
tatuagem;
salto;
saia;
História;
aprendizagem;
escrever;
ler;
falar;
criança;
Eliana;
truco;
tomate;
Tom;
Vida!!!!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Samba pra distrair, Crime pra comentar.


Exército pede desculpas a mães de jovens mortos no Rio
Folha de São Paulo, Ter, 17 Jun, 01h05



Parentes dos três jovens do Morro da Providência encontrados mortos no fim de semana ouviram hoje do general Mauro César Lorena Cid, comandante da 9.ª Brigada de Infantaria, o primeiro pedido de desculpas formal do Exército.

Acompanhadas de advogados, as mães das vítimas foram até o Ministério Público Estadual para ter acesso ao inquérito e formalizaram uma denúncia contra a União sob a acusação de triplo homicídio qualificado.
O general Mauro César Lorena Cid anunciou, em reunião com líderes da comunidade, no centro da capital fluminense, que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e integrantes do alto escalão do Exército estão a caminho do Rio para decidir sobre a eventual permanência das Forças Armadas na comunidade.

Segundo líderes comunitários, as obras do projeto Cimento Social no morro deverão ser retomadas até quinta-feira, mas só continuariam após a retirada das tropas.
O Centro de Comunicação Social do Exército divulgou ontem uma nota informando que o Comando Militar do Leste determinou a abertura de inquérito para investigar a atuação de militares na Região do Morro da Providência, na cidade do Rio de Janeiro.

De acordo com informações publicadas hoje, 11 militares são acusados de terem "vendido" três jovens a traficantes de favela rival.

O Exército esclarece que participa de uma "ação subsidiária" na área que tem por base acordo entre os ministérios de Cidades e Defesa.
O Exército divulgou que repudia qualquer ação ilegal praticada por militares. "Assim, o Comando Militar do Leste determinou a instauração de Inquérito Policial Militar, instrumento jurídico competente, para apuração rigorosa dos fatos.

Alguns militares encontram-se à disposição da Justiça, para fim de investigação." A nota conclui afirmando que "o Exército está comprometido com os superiores interesses e as aspirações da sociedade brasileira."

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Polivox.


Remix Século Xx
Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhoto / Waly Salomão


Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs.
Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs.
Faça você mesmo seu micro tabuleiro enquanto jogo lingüístico.
Babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé,
beatnick, vietcong, bolchevique, technicolor,
biquini, pagode, axé, mambo, rádio, cibernética;
Celular, automóvel, buceta, favela, lisérgico,
maconha, ninfeta, megafone, microfone, clone,
sonar, sputinik, dada;Sagarana, estéreo,
subdesenvolvimento, existencialismo, fórmica,
arroba,antiquarios, motossera, mega sena;
Cubofuturismo, biopirataria, dodecafônico, polifônico,
Naviloca,
polivox, polivox, polivox, polivox.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Nua.


'Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador.
Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.'

[Clarice Lispector]
'Weeping Nude', 1913 - Tela de Edward Munch.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Coletânea Carlos Drummond de Andrade.


"Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira".
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"Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.
Se um dia tiverem que pedir perdão umao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...
Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...
Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...
Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela...
Se você preferir fechar os olhos, antes de vera outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.
Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio.
Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!"
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"Se você sabe explicar o que sente, nao ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis".

Diálogo.




Ilsa: Toque uma vez, Sam. Pelos bons velhos tempos.
Sam: Eu não sei o que você quer dizer, Senhorita Ilsa.
Ilsa: Toque, Sam. Toque "As Time Goes By".

Casablanca, 1942.